Ayrton Senna:Herói brasileiro?
A recente produção da Netflix, Senna, trouxe de volta aos holofotes o icônico piloto de Fórmula um, Ayrton Senna. Com interpretação de Gabriel Leone, a série de seis episódios retrata brevemente a vida e morte do maior piloto Brasileiro.
Como toda grande produção, junto do sucesso, vem também as críticas, positivas, negativas e as múltiplas e diversificadas opiniões dos telespectadores. Os que já conheciam Ayrton, em grande maioria aclamaram a série, apesar de terem sentido falta de alguns momentos marcantes da vida do automobilista; já os que não conheciam, tiveram a chance de assistirem com detalhes algumas das maiores corridas do piloto.
Em meio a tantas concepções sobre a vida de Senna, principalmente amorosa, uma declaração em específico me chamou atenção e me motivou a escrever este texto.
"Senna é herói brasileiro por quê? Porquê pilotava bem um carro?".
Em razão dessa intrigante afirmação, eu te convido a entender o porquê de Ayrton ser considerado uma lenda em território nacional.
Contexto
Após passar pelas categorias preparatórias para a fórmula 1 na época, como a Fórmula Ford 1600 em 81, Fórmula Ford 2000 em 82 e a fórmula três inglesa em 83, foi só em oitenta e quatro que conquistou seu tão sonhado assento na maior categoria do automobilismo. Ali começava um sonho, que aos poucos deixou de ser apenas de Ayrton e se tornou do Brasil inteiro.
Na Toleman, que possuía um carro fraco se comparado ao de outras equipes do grid, Senna já impressionava. Pela equipe inglesa conquistou três pódios em seu ano de estreia e somou pontos importantes em cinco corridas daquele ano.
Sem dúvidas, sua mais marcante corrida na temporada de 84 foi a de Mônaco. Largando da décima terceira posição, logo na primeira volta já havia conquistado o nono lugar; em meio a intensa chuva que caia na cidade-estado, Beco, como era chamado pela família, impressionava não só os brasileiros, mas sim o mundo todo.
Aproveitando-se de seu bom ritmo aliado aos erros e dificuldades de seus adversários, na volta 10, Senna já era o sétimo colocado. Com Nigel Mansell perdendo o controle de sua Lotus na volta 16, Ayrton só tinha em sua frente Niki Lauda e Alain Prost, pilotos da equipe que dominava o grid naquela temporada e que mais tarde se tornaria a equipe onde o brasileiro conquistaria seus três campeonatos, a Mclaren.
No início da volta 19, antes da curva Saint Devote, Ayrton fez uma fascinante ultrapassagem por fora. Ninguém conseguia acreditar que uma Toleman poderia vencer tão facilmente uma McLaren.
Na volta 31, quando Senna estava apenas 7 segundos de alcançar Prost, Jacky Ickx, diretor de prova, encerrou a corrida alegando falta de condições para os pilotos continuarem a disputa. De acordo com o jornalista Reginaldo Leme, anos depois Ickx revelaria que teria sido pressionado pelo dirigente da FISA, Jean-Marie Balestre, para encerrar a corrida.
Os anos oitenta estampavam as consequências de uma agressiva e devastadora ditadura militar, a crise econômica advinda das enormes dívidas adquiridas pelos militares assolava a maior parte da população. Somado a isso, a seleção brasileira não conquistava um título notável a 20 anos, o brasileiro sempre foi movido a esportes, e ali, naquele domingo em 84, conhecia quem em breve se tornaria o maior piloto de sua história, e um dos maiores ídolos de todos os tempos.
Carreira marcante
Pela Lotus, Ayrton conquistou seis vitórias, 22 pódios e 16 poles.
A maior e mais inesquecível corrida de Senna pela Lotus foi em 1985, no GP de Portugal, onde conquistou sua primeira vitória na Fórmula 1.
Naquele 21 de abril, a chuva molhava a pista do Autódromo de Estoril. Um ano antes, na Toleman, Senna já havia mostrado seu talento e habilidade na pista chuvosa de Mônaco para conquistar o primeiro pódio da carreira. O homem que mais tarde seria conhecido como “Rei da chuva”, não falhou. Enquanto os adversários se deparavam com dificuldades, Ayrton parecia voar. Ele conquistou a vitória com mais de um minuto de diferença para o segundo colocado, Michele Alboreto, da Ferrari.
Em 1987, Ayrton chegaria à glória em Mônaco pela primeira vez. Ele ainda não havia vencido na temporada, conquistando apenas um segundo lugar e dois abandonos. O brasileiro largou em P2, atrás de Nigel Mansell, a pista era estreita e com poucas zonas de ultrapassagem, tudo ficou mais difícil quando Mansell aplicou onze segundos de vantagem em Senna. A Williams do inglês voou em Monte Carlo, mas ele precisou abandonar devido a problemas no motor. Foi a hora de Ayrton conquistar a liderança.
O até então piloto da Lotus não deixou a vitória escapar pelos seus dedos, ao final da prova, Ayrton havia encaixado 33 segundos de vantagem em cima do segundo colocado.
Essa foi a primeira das seis vitórias de Ayrton em Monte Carlo. Na coroação do “Rei de Mônaco”, a família real do principado tomou um banho de champanhe do piloto da Fórmula 1.
Não demorou muito para o talentoso piloto chamar atenção de uma das maiores equipes do automobilismo, a Mclaren. Já em seu primeiro ano na equipe, Senna se consagrou campeão mundial pela primeira vez.
No dia 30 de outubro de 1988, a pista Japonesa seria responsável por definir de vez o campeão daquele ano, era um campeonato acirrado entre os dois pilotos da equipe neozelandesa. Mesmo após conquistar a pole position, o tempo parecia fechar para Ayrton. Já na primeira volta, por um erro ao acionar a marcha, Senna caiu para a 14ª posição e viu o título ficar cada vez mais distante de si e próximo de seu rival e companheiro de equipe, Alain Prost, que assumiu a liderança.
Ainda na primeira volta, o brasileiro ultrapassou quatro carros e contou com a batida de dois pilotos para chegar na oitava colocação. Não demorou muito para ele escalar o grid e ficar a 13 segundos de Alain. Mais rápido que a Ferrari, Ayrton superou Gerhard Berger na 11ª volta para ficar entre os três primeiros colocados.
Como um roteiro perfeitamente e meticulosamente escrito pelos deuses do automobilismo, a chuva caiu em Suzuka a partir da volta 13. Senna não diminuiu a velocidade e encostou em Alain Prost e Ivan Capelli. Após sete voltas, deixou o piloto da Mach para trás e foi em busca da primeira posição. Só na 27ª volta que o brasileiro fez a manobra da temporada. Na principal reta do circuito, Ayrton colou ao lado de Prost e chegou ao limite para conseguir a posição. O francês fechou ao máximo que pôde e fez o brasileiro encostar na linha do pitwall, não foi o suficiente para impedir a ultrapassagem. Naquela madrugada, o Brasil assistiu Senna ser campeão da Fórmula um pela primeira vez.
E finalmente, em 1991, Senna vence pela primeira vez em casa.
Era uma daquelas corridas difíceis, depois de tentar tantas vezes, Ayrton não queria deixar que a vitória batesse na trave. O início da corrida era como o planejado, Senna na frente, mas na vigésima volta, o primeiro problema surgiu.
O inglês Nigel Mansell, agora numa potente Williams se aproximava por 7 segundos de Ayrton, veio então, a primeira “ajuda dos céus” segundo Senna. Mansell entrou nos boxes na 26ª volta de 71, para o primeiro pit stop. O trabalho da Williams foi um completo desastre. O carro permaneceu parado por 14 segundos e Nigel perdeu o segundo lugar para Patrese, seu companheiro de equipe e o terceiro para Jean Alesi, da Ferrari. Após pit stop de Senna e Patrese, o inglês da Williams se encontrava 7 segundos atrás de Ayrton. Mansell voava na pista e não tardou em assumir o segundo lugar, se colocou a 4s1 de Senna na 46ª volta.
Na volta 50ª, o inglês retorna novamente aos boxes, motivo: pneu furado. No mesmo momento, a chuva começava a cair pelo autódromo, o único problema é que faltando 20 voltas para o final, Ayrton perdia a quarta marcha, logo perdia a quinta, a terceira, e dando tudo de si para se manter a frente, a única marcha que o restava era a sexta; e foi com ela, unicamente, que Ayrton Senna venceu aquela corrida.
Senna: “Eu achei que não ia ganhar nas duas voltas finais com o problema no câmbio nas últimas 7 voltas. Eu falei… se der vai ser no grito. Aí eu pensei comigo, eu lutei tanto esses anos para chegar nisso e hoje lutei tanto… eu falei vai ter que dar, vai ter que dar”. Após o fim da corrida, devido ao seu grande esforço físico, Senna sofreu espasmos musculares em seus ombros e pescoço, chegando a desmaiar dentro do carro; esse sem dúvidas foi seu ato mais heroico. Ali, naquele pódio, um sonho se realizava e se eternizava em sua casa.
Muito além de números
Embora títulos e vitórias sejam muito importantes na hora de classificar um ídolo no esporte, Ayrton era muito além disso.
O paulista encantava o mundo inteiro não apenas por seu talento, mas também pelo seu carisma e inteligência. Senna sempre demonstrou sentir o carro, sempre preciso em explicar aos seus mecânicos quais eram as dificuldades e o que era necessário melhorar. De acordo com Neyde Senna, o filho havia nascido para ser piloto.
Seu talento ia muito além de um bom carro ou condições favoráveis, sua determinação em vencer era o que o diferenciava dos outros. De certa forma, Ayrton era uma inspiração ao povo, ele levou o país aos holofotes internacionais, sempre destacando o quão feliz e grato se sentia por ser brasileiro, mesmo em tempos difíceis.
Suas declarações inspiraram gerações e ainda são seguidas como um dilema para muitas pessoas. Mesmo em uma posição de privilégio, Ayrton via os problemas de nosso país e se preocupava com eles, tanto que logo após sua morte, o Instituto Ayrton Senna foi fundado, buscando levar educação a crianças carentes em todo o Brasil. Em sua categoria, Senna sempre fez questão de deixar claro suas preocupações com as condições que os pilotos eram submetidos, a falta de segurança e preocupação por parte dos chefes e dirigentes da FIA eram alguns dos defeitos que Ayrton não hesitava em apontar na categoria.
“E na véspera do acidente, cometi um grande erro. Só vi um homem com extintor de incêndio, só um, mas não fiquei muito preocupado’’. “Eu deveria ter perguntado sobre outros bombeiros e alertado os outros pilotos” “Me sinto parcialmente culpado, porque bastava um corpo de bombeiros adequado e Elio ainda estaria aqui com a gente, aqui entre nós.” Ayrton sobre a morte de seu companheiro de equipe na Lotus, Elio de Angelis.
A partir do trágico acidente de Elio, Senna levantou sua voz e pôs a cara a tapa, sempre lutando pela segurança na F1. Antes de seu falecimento, indignado com a atitude da FIA de continuar o GP de San Marino mesmo após perder um de seus pilotos, em uma conversa com Niki Lauda, Ayrton expressou sua vontade de retornar com a Grand Prix Drivers Association (Associação dos Pilotos de Grandes Prêmios), que buscava lutar por direitos e proteção aos atletas, fundada por seis pilotos da categoria nos anos 60 e dissolvida oficialmente em 1982.
Mas antes que seu desejo fosse realizado, Ayrton Senna se despediu das pistas e do mundo para sempre.
O falecimento de um herói brasileiro.
O tempo em Ímola não parecia bom. Na sexta-feira, no treino classificatório, o também brasileiro Rubens Barrichello se envolveu em uma forte batida com o muro, sofrendo uma luxação na costela e uma fratura no nariz. No treino seguinte no sábado, o piloto austríaco Roland Ratzenberger deixou para sempre as pistas após bater violentamente na curva Villeneuve e não resistir a lesões cerebrais. O acidente de Barrichello e a morte de Roland deveriam ter parado o fim de semana e impedido que a corrida acontecesse, por respeito a Ratzenberger e pela proteção dos outros pilotos.
Embora as condições fossem alarmantes, a FIA prosseguiu com a corrida e no dia seguinte, a morte do maior piloto em atividade chocou o mundo inteiro. As pessoas ao redor de Ayrton diziam que ele não queria correr. A corrida já começava com uma batida entre Pedro Lamy, da Lotus e JJ Lehto, da Benetton, O início complicado já ditava o fim: trágico. E na sexta volta de 58, Senna bate forte contra o muro, despedaçando não só o seu carro, mas o coração de todos que o amavam e o conheciam.
A morte do ídolo em ascensão traumatizou o Brasil, o mundo e a Fórmula um para sempre.
Legado
O legado que Ayrton deixou é até hoje um dos maiores da história, suas vitórias, corridas, campeonatos, mas principalmente seu coração. Quando Senna se foi, levou uma parte do Brasil com ele, é impossível conhecer sua história e não se emocionar com algum momento desta linda, embora trágica, trajetória.
Hoje em dia, a maioria dos pilotos do grid o consideram como o maior da história e cresceram tendo o brasileiro como um espelho. Lewis Hamilton, sete vezes campeão mundial sempre faz questão de lembrar como o piloto paulista o inspirou e o quanto o admira.
Eu espero que, com esse longo texto, mas nem de perto suficiente para descrever e expressar quem Ayrton Senna era, algumas pessoas possam entender o porquê do piloto ser considerado um herói nacional.
Senna não era herói apenas por suas vitórias, mas por proporcionar felicidade e orgulho ao povo brasileiro em tempos tão difíceis. Ele era a inspiração que todos precisavam para seguir em frente. E jamais será esquecido.
“Seja quem você for, seja qualquer posição que você tenha na vida, do nível altíssimo ao mais baixo social, tenha sempre como meta muita força, muita determinação e sempre faça tudo com muito amor e com muita fé em Deus, que um dia você chega lá. De alguma maneira você chega lá” - Ayrton Senna do Brasil
“O medo me fascina” - Ayrton Senna
Texto por Ana Clara Montes
Fontes:
• Documentário Senna: O Brasileiro. O Herói. O Campeão. via Netflix
• A verdadeira história da vitória de Senna no GP Brasil de 1991 – Youse
• Ayrton Senna: veja as maiores vitórias da carreira na F1 – GE
• Há 30 anos, batida de Barrichello iniciava fim de semana mais trágico da história da F1 – Motorsport
• Senna: Quais acidentes antecederam a morte do piloto brasileiro – Correio Braziliense
• Os melhores momentos de Senna com a Toleman – Site oficial Senna
• Senna e Lotus: vitórias e pódios inesquecíveis - Site oficial Senna
• O último pedido de Ayrton Senna que a Fórmula um honra até hoje – Laura @formulalau via X

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