BOATE KISS: UMA NOITE SEM FIM
Boate kiss: uma noite sem fim.
Notícia conta a situação atual do caso da boate kiss, a busca por justiça e fatos não contados na série.
Onde você estava no dia 27 de janeiro de 2013?
No dia 27/01/2013 ocorreu o maior incêndio da história de Santa Maria, Rio Grande do Sul, causando 242 mortos e 636 sobreviventes com marcas que irão permanecer para sempre.
Essa era a programação da noite. Antes mesmo da tragédia acontecer já sabiam que iria ser uma noite inesquecível, só não sabiam que seria dessa forma. A boate estava lotada, havia cerca de 1500 pessoas no local, uma superlotação levando em consideração que a capacidade máxima da casa era de 691 pessoas.
O incêndio começa quando o cantor usa dispositivos pirotécnicos como efeito visual. As faíscas atingiram a espuma acústica do teto, e assim, começando o incêndio e espalhando fumaça tóxica (a mesma usada nas câmeras de gases no período do holocausto - cianeto) por toda casa noturna.
Assim que as pessoas perceberam que estava acontecendo um incêndio, todos entraram em pânico e correram procurando a saída, a qual foi barrada por seguranças alegando a frase “sem comanda ninguém sai”. A maioria dos corpos das vítimas estavam no banheiro, acreditando que lá era a saída, eles entraram e pela falta de iluminação e saída de ar, ficaram presos e morreram lá mesmo.
A maioria das mortes foram causadas por asfixia pela fumaça tóxica e não pelas chamas.
O resgate aconteceu por meio do corpo de bombeiros e da ajuda dos próprios sobreviventes que começaram a tentar quebrar as paredes para criar uma saída de emergência.
O domingo foi marcado pelo reconhecimento de corpos. Todas as vítimas que, infelizmente, tiveram suas vidas interrompidas foram levadas ao ginásio municipal. As famílias precisaram entrar e reconhecer os corpos de seus próprios filhos.
NEGLIGÊNCIAS
Não tinha nem um mês do ocorrido e as autoridades já tinham definido que a tragédia ocorreu por uma uma sucessão de erros primários. Tinha tudo para dar errado. Então aqui vai um compilado das maiores negligências cometidas:
1- Uso de fogos de artifício inadequados:
Durante apresentação, cantor usou o conhecido “chuva de prata” indicado para uso em ambiente externo, conforme o aviso na embalagem. O produto foi comprado dois dias antes, no depoimento o gerente da loja afirmou oferecer dois produtos : um fogos de artifício para ambiente interno, com o valor de 50 reais; e um para ambiente externo com o valor de 2,50.
Fazendo as contas, cada vida vale 20 centavos.
2- Espuma inflamável:
O revestimento acústico da boate (espuma que pegou fogo) foi feito com espuma sem tratamento anti-chama. A espuma foi colocada por dois sócios sem supervisão técnica. A perícia confirmou que a espuma tinha composição tóxica, contendo poliuretano, material altamente inflamável, que libera gases como cianeto durante a queimada. Esse gás foi o maior responsável pela maioria dos óbitos.
3- Falha no extintor de incêndio:
Assim que o fogo começou, o vocalista tentou usar o extintor de incêndio,posicionado ao lado do palco, para cessar o fogo, mas o equipamento não funcionou. O laudo do IGP confirmou que o extintor estava inoperante. A falha do equipamento foi fundamental para a propagação do incêndio, já que poderia ter extinguido o fogo inicial. Os funcionários disseram que Elissandro, sócio da boate, não costumava deixar os extintores na parede com a justificativa de estragar a decoração.
4- Não havia saída de emergência:
A kiss tinha apenas uma porta. As leis contra incêndio de Santa Maria, baseadas na norma 9.077 da norma ABNT, determina duas saídas para casas noturnas. E a única saída que tinha, possuía 2,56 metros, onde deveria ter 4,40.
5- Não havia ventilação:
A boate não tinha janelas e o sistema de exaustão de ar estava obstruído. Isso impediu a dispersão da fumaça, que acabou direcionada principalmente para a saída, quando as portas foram abertas.
De acordo com um vídeo extraído pela polícia do celular de uma pessoa que estava na boate, a fumaça tomou conta do ambiente em poucos segundos. “A concentração e toxicidade da fumaça gerada foram decisivas para o surgimento de tantas vítimas fatais”, salientou o relatório do Crea-RS.
6- Falhas na concessão dos alvarás:
De acordo com a polícia, os alvarás contra incêndio não poderiam ter sido emitidos por conta das irregularidades, citadas acima, na boate. Na emissão do segundo alvará, constatou também o Crea-RS, uma vistoria detectou que havia apenas uma porta de saída, mas o documento foi liberado, mesmo assim, após uma segunda vistoria. Do mesmo modo, segundo a polícia, a prefeitura não poderia ter emitido o alvará de localização, pois a boate estava com alvará sanitário vencido e o projeto arquitetônico apresentava 29 irregularidades e ainda não havia sido aprovado. Cinco bombeiros foram denunciados na Justiça Militar por não terem fiscalizado adequadamente a boate, mas o MP entendeu que a conduta deles não teve relação com as mortes. O pedido de indiciamento de quatro servidores públicos foi arquivado.
7- Documentos fraudados:
Os donos da boate fraudavam documentos para regularizar a abertura do local. Para expedir o alvará de localização, em 2009, era preciso uma consulta popular com assinaturas de moradores de um raio máximo de 100 metros da kiss. Muitas pessoas que assinaram não moravam nesse raio ou sequer existiam.
(para saber todas as negligências: https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2015/01/dois-anos-depois-veja-24-erros-que-contribuiram-para-tragedia-na-kiss.html)
AVTS
A Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria foi criada no dia 23/02/2013 com a finalidade de reunir todas as famílias e buscar a justiça. Lutar pela defesa dos direitos daqueles que sofrem com a perda dos entes queridos e aqueles sobreviventes que lidam com as marcas do ocorrido.
Onde você estava no dia 27/01/2013?
Foi uma pergunta apenas escutada, acolhida e tomada na sua importância visto que tem sido há quase dez anos o ponto de partida para os santa-marienses falarem da tragédia. Por isso, partimos dela também.
Abaixo, na primeira opção, você pode escrever seu relato e na segunda opção fazer o upload de arquivo (até 1GB). Neste último, pode ser enviado um arquivo de texto, vídeo, áudio, foto, poema, etc., qualquer forma que você encontre para os efeitos dessa pergunta.
https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdMw3x7FWnf7RaKFpJ40bq_2hk3YrQZKOPdedASoYgtzRihwA/viewform
JULGAMENTO
Depois de todas essas negligências, ainda assim demorou cerca de oito anos para abrirem um processo, que ainda está aberto até hoje em dia.
28/01/2013 : Um dia após a tragédia, a justiça decretou prisão temporária para os dois sócios da boate (Elissandro Spohr e Mauro Londero), para o produtor da banda “Gurizada Fandangueira" (Luciano Bonilha) e para o vocalista da banda (Marcelo de Jesus)
01/03/2013 : A polícia anulou a prisão temporária e decretou a prisão preventiva dos quatro suspeitos.
02/04/2013 : Oito pessoas foram denunciadas criminalmente pelo Ministério Público. Quatro deles por homicídio doloso qualificado (aquele que foi cometido com um elemento mais grave se comparado com a forma simples) e tentativa de homicídio. Duas delas por fraude processual e duas por falso testemunho
29/05/2013 : A justiça decide conceder liberdade provisória para aqueles que estavam presos. Eles passam a responder o processo em liberdade
03/06/2015 : Dois bombeiros foram condenados pela inserção da falsa declaração na assinatura e emissão do segundo alvará que liberava o funcionamento da boate.
27/07/2016 : Os quatros réus (dois sócios da boate, produtor e vocalista da banda) serão julgados em júri popular conforme determinação do juiz Ulysses Fonseca
23/03/2017 : O tribunal de justiça negou os recursos dos réus contrários à realização do júri. Por outro lado, os desembargadores também decidiram retirar as qualificadoras do crime, de motivo torpe e meio cruel.
01/12/2017 : A justiça desconsiderou homicídio doloso, logo, decretaram que os réus não iriam mais ser julgados em júri popular.
18/06/2019 : STJ (superior tribunal de justiça) decidiu enviar os acusados ao júri popular.
14/10/2019 : Júri é marcado. Em março de 2020 seriam julgados Marcelo de Jesus e Mauro Hoffmann. E em abril, Elissandro Spohr
12/03/2020 : O ministro do STJ, decidiu adiar o julgamento popular até análise de desaforamento
05/04/2021 : Data do júri é marcada para o dia 01/12/2021, às 9h em Porto Alegre
01/12/2021 : Júri dos quatros réus começa com sessões diárias.
02/12/2021 : O segundo dia teve os depoimentos das testemunhas e três sobreviventes. Dia de emoções
10/12/2021 : Após 10 dias de julgamento, os quatro réus pelo incêndio foram condenados a penas de 18 a 22 anos e meio de prisão.
03/08/2022 : A 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça acolheu parcialmente os recursos das defesas e anulou o júri que condenou os quatro réus – todos soltos. Dessa forma, um novo júri deve ser marcado.
(Para ver a cronologia do processo judicial completo: https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2023/01/23/incendio-da-boate-kiss-completa-10-anos-na-sexta-relembre-cronologia-do-caso.ghtml)
A MULHER DE VERMELHO
Muitos sobreviventes relatam sobre “a mulher de vermelho” que virou uma espécie de lenda sobre a tragédia. Eles falam que durante o incêndio, uma mulher vestida de vermelho apareceu chamando a galera pro banheiro e falando que lá era a saída. A maioria dos corpos estavam no banheiro por muitos acreditarem ser a saída.
Outra sobrevivente também relata que viu a mesma mulher no hospital enquanto estava internada. Ela diz que não conseguia descansar, pois sempre que fechava os olhos via a mulher chamando ela para um lugar muito ruim, ela sentia uma energia muito ruim.
Mas tudo isso não passa de boatos. Mas é claro que fica a dúvida se é verdade.
RECOMENDAÇÕES
Se for sensível a esses temas, não assista.
- Boate kiss: a tragédia de Santa Maria
Marcelo Canellas conta a história de luta por justiça protagonizada por familiares das vítimas de uma das maiores tragédias do Brasil: o incêndio da Boate Kiss. (Globo play)
- Todo dia a mesma noite: incêndio da boate kiss
A trama acompanha, partindo do momento do acidente, as histórias dos impactados por ela em diferentes pontos de vista, como o trabalho das equipes de resgate, as consequências para os sobreviventes e a negligência dos empresários da organização da boate. A minissérie ficcional enfatiza a luta das famílias das vítimas, que seguem em busca de justiça até hoje - uma década depois. (Netflix)
- Todo dia a mesma noite: a história não contada da boate kiss
reúne depoimentos de vários familiares, amigos e até sobreviventes do incêndio. Apesar de ser um livro curto, é uma leitura dolorosa e intensa. (Livro)
para ver a cronologia de tudo que aconteceu acesse: https://www.mprs.mp.br/hotsite/boatekiss/#!/timeline

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