AS REVOLTAS NA FRANÇA
Há 4 meses, era constante a insatisfação popular relacionada à reforma da previdência do atual presidente, Emmanuel Macron, eleito pela primeira vez em maio de 2017 e reeleito em abril de 2022. Segundo o projeto da reforma, a idade de aposentadoria passa de 62 para 64 anos a partir de 2030 e prevê para 2027 a exigência de contribuição por 43 anos, e não 42, para receber a aposentadoria integral. Segundo pesquisas, dois a cada três franceses são contra essa mudança.
O descontentamento público era perceptível já em 2019, quando cerca de 339 mil manifestantes foram às ruas, 31 mil só em Paris, a fim de protestar contra o projeto proposto pelo governo. Parte da reação dos franceses vem do fato de que jovens teriam menos oportunidade de emprego e idosos teriam que trabalhar mais tempo. Além disso, pessoas ficaram indignadas após Macron usar uma lei da constituição francesa, considerada antidemocrática por alguns políticos, que diz que mesmo sem o voto do Parlamento, uma lei pode ser adotada, ou seja, o presidente poderia passar por cima da decisão dos legisladores, evitando assim a possibilidade de que o projeto de lei seja derrotado pelo voto contrário. Em contra-partida, parlamentares poderiam apresentar, em até 24 horas, um voto de desconfiança de 10% dos membros, rompendo assim o governo e, consequentemente, o projeto.
Enquanto Emmanuel Macron afirmou que “a medida seria necessária para evitar que o sistema previdenciário entre em colapso à medida que a idade média da população do país aumenta, assim como a expectativa de vida”, os cidadãos responderam interrompendo o serviço de coleta de lixo e, por consequência, acumulando toneladas de lixo em Paris, criticando o governo (ação realizada pela direita e esquerda), levaram ao fechamento da maior hidrelétrica da França, em 2020, lançando pedras e resistindo às investidas da polícia. As autoridades francesas também agiram lançando bombas de gás lacrimogêneo, tentaram evacuar os locais onde aconteciam as revoltas e usaram de força bruta, além da necessária, para com os manifestantes
A EXPERIÊNCIA DE UM TURISTA
Entrevistadora: “Então, Sabará, como você percebe o clima na cidade em que está?”
Sabará: “O clima aqui é tranquilo, tirando uns lugares mais turísticos onde é bem movimentado, a maioria das pessoas me tratou super bem. Tá’ uma vibe boa, menos nos protestos, onde o clima fica mais tenso porque tem muito policial em volta. Aí você fica até mesmo com medo de alguém passar um pouco mais do limite que deveria e acabar tendo uma briga. Até mesmo por isso que nos protestos que eu vi, eu só fiquei na parte mais de fora, pra caso desse algum problema seria mais tranquilo de sair.”
Sabará: “Claro que tem transtornos na rotina. Eu já me perdi pegando o metrô porque eu não sabia que tinha duas linhas pra um mesmo metrô. Às vezes, é uma dificuldade para ir em uma padaria e pedir um pão qualquer porque eu não falo francês. Alguns franceses simplesmente parecem não gostar de imigrantes e turistas. Quando percebem que você é um desses e que ainda não sabe falar francês, eles fecham a cara e quase não te ajudam. Como eu sou turista também, eu sempre fico um pouco noiado com o fato de poderem me furtar, então eu sempre seguro firme o meu celular e apalpo os bolsos pra ver se não tem algo faltando. Conviver com isso de certa forma é tranquilo porque meio que eu já esperava, mas pra caso alguém queira vir, recomendo vir bem preparado, sabendo pelo menos falar e entender algumas frases simples.”
Sabará: “Eu não cheguei a ter muito contato com os protestos, só encontrei dois. Um na praça do Hotel de Ville e outro em frente a Place de la Bastille. O primeiro não foi tão grande assim, só que mais pro final ele foi ficando maior. Já o segundo teve bastante polícia, inclusive eu só passei por esse protesto de bicicleta porque não tinha ônibus por causa do próprio protesto. Esse eu não vi por muito tempo, só passei na frente de bicicleta, mas quando eu passei por ele, eu ouvi um estouro bem alto, como se fosse de uma bomba.”
O PODER FRANCÊS
Assim como dizem nossos livros didáticos, a França vem sendo palco de grandes manifestações há muito tempo, é como uma longa tradição de protestos que remontam ao período da Revolução Francesa. Os franceses, além de habituados, enxergam a ida às ruas para se expressar como uma maneira legítima de fazer com que as pessoas ouçam aquilo que têm a dizer. É importante, inclusive, notar que os protestos na França geralmente envolvem uma grande variedade de questões e são geralmente desencadeados por uma combinação de fatores. Dentre estes fatores que permitiram a “tradição” das manifestações, estão a cultura de debate intelectual e político forte, o enfrentamento de uma série de desafios sociais e econômicos e mudanças políticas significativas na França.
Bons exemplos da força do povo francês incluem a greve iniciada em dezembro de 2020, no sistema de transporte contra a reforma da previdência, que já entrou para a história da França como a mais longa do setor na história do país, superando a greve de 80, quando ferroviários passaram 28 dias de braços cruzados, e a série de manifestações acarretadas pelo descontentamento francês, em outubro de 2022, relacionado a escassez de combustível, motivada pela greve das refinarias, desgaste no poder de compra e outros diversos fatores contra a alta de preços que assustou vários consumidores.
SITUAÇÃO NA EUROPA
Entendemos, portanto, que a França é mestre na arte de se manifestar, mas por que nenhuma dessas manifestações gerou uma nova revolução francesa?
Dessa forma, é possível perceber que os traços presentes na Revolução Francesa se diferem em muitos pontos das manifestações e revoltas que estamos vendo. Contudo, uma coisa é certa: estamos vivenciando um momento importante para a história francesa e, em alguns anos, pessoas mais jovens que nós, estudarão tudo que vimos.
Créditos: Maria Eduarda Cruz, Júlia Fialho e Júlia Vicente.

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